Lendo outros relatos de outros doxógrafos:
Relato de Pseudo - Plutarco (relativo a Plutarco, séc. I e II d.C.)
Relato de Pseudo - Plutarco (relativo a Plutarco, séc. I e II d.C.)
“… Anaximandro que foi companheiro de
Tales, disse que o apeiron continha a causa inteira da origem e destruição do
mundo, de que, segundo ele, os céus estão separados e, em geral, todos os
mundos, que são apeirous (inumeráveis).
Ele declarou que a destruição e muito
antes a geração acontecem desde idades infinitas, pois todas ocorrem em
ciclos”.
Relato de Hipólito de Roma (séc. II e III d.C.)
“Ora, Anaximandro de Mileto, …, disse
que o princípio e elemento das coisas que existem era o apeiron, tendo sido ele
o primeiro a usar este nome do princípio material. (Além disso, disse que o
movimento era eterno, do que resulta que se originem os céus). … ele disse que
o princípio material das coisas que existem era uma natureza do apeiron, de que
provêm os céus e o mundo neles contidos.
Esta natureza é eterna e não envelhece,
e também circunda todos os mundos.
Ele fala do tempo como se a geração, a existência
e a destruição fossem limitadas.
(Ele fala do tempo …)”.
"… O divino é que não tem
origem nem fim … "
Relato de Diógenes Laércio (? séc. III d.C.)
“Anaximandro … dizia que o princípio e
elemento é o indefinido, sem distinguir o ar, ou a água ou outra coisa …”
Relato de Simplício (séc. V e VI d.C.) (DK 12 B 1)
103 A
“Entre
os que admitem um só princípio móvel e infinito, Anaximandro de Mileto, …,
disse que o princípio, e elemento das coisas que existem, era o apeiron
(indefinido e infinito), tendo sido ele o primeiro a usar este nome do
princípio material. Diz ele que não é a água, nem qualquer outro dos chamados
elementos, mas uma natureza apeiron, de que provêm todos os céus e os mundos
neles contidos.
E, a
fonte da geração das coisas que existem é aquela em que se verifica também a
destruição segundo a necessidade; pois paguem castigo e retribuição uns aos
outros, pelas suas injustiças, de acordo com o decreto do tempo, conforme ele
se exprime nestes termos um tanto poéticos”.
O que
é Anaximandro poderá ter constatado e que o levou a caminhar num determinado
sentido?
Anaximandro
foi um homem atento à realidade que o circundava e sentia-se envolvido por ela.
Perante
a continuidade do evoluir constata que ocorrem mudanças constantes da
realidade, visto que ocorrem períodos de instabilidade seguidos de
estabilidade, e não desviava a sua atenção ao sequenciar cíclico dos fenómenos.
O
homem vê-se perante a multiplicidade (abundância), pluralidade (grande número) e
a diversidade (variedade) das coisas existentes e dos respectivos fenómenos.
Ele
apercebeu-se que as coisas, e os seus fenómenos, com que se confrontava seguem
uma ordem ou lei, -Ordem Natural, onde se inclui a ordem humana. Contudo,
dirige a sua atenção ainda para mais longe, ou seja, para a ordem universal que
rege as coisas que proliferam pelo universo.
Verificou
que tais coisas:
-Não
se manifestam sempre do mesmo modo e cada uma tem o seu próprio tipo de
manifestação.
-São
passíveis de serem sentidas (objectos da nossa experiência).
-Têm a
tendência para a transformação umas nas outras.
A
terra absorve a água da chuva. A água apaga o fogo, acabando por desaparecer os
dois. O fogo aquece a água e gera-se vapor.
-As
sua propriedades ou qualidades:
Sucumbem
ao longo do tempo (morte).
Tudo o
que nasce um dia vai morrer (geração e morte).
As
coisas estão fadadas a desaparecer (retorno ou morte).
Tudo o que é quente acaba por esfriar (variação de estado e dualidade).
Tudo o
que é grande pode ser dividido em partes mais pequenas (divisibilidade).
Todas
as coisas são limitadas e usufruem do direito de lugar (limitação e
determinação)
As
coisas são susceptíveis de se deslocarem (mobilidade).
As
coisas estão sujeitas à lei do destino e da justiça (tempo).
Mas, o
seu interesse em indagar a physis leva-o a notar mais situações.
Tudo o
que se manifesta na natureza o faz de forma dual: dia e noite, masculino e
feminino, positivo e negativo, vida e morte, calor e frio, seco e húmido, claro
e escuro, etc.
O ar é
frio, a água é húmida, e o fogo é quente. Frio, húmido e quente são qualidades
dos elementos antagónicas entre si. Cada uma das coisas tem um oposto. O oposto
da água é o seco. Portanto, os elementos possuem atributos definidos e actuam
em oposição uns aos outros.
Acerca
da água:
Os
processos de condensação e rarefacção da água exigiam um principio
transformador.
A água
nas diversas transformações não permanece sempre igual a si mesma.
Do
elemento fogo não pode surgir um elemento contrário como a água, porque a
observação mostra que eles tendem a destruir-se mutuamente.
O que se
enuncia fá-lo duvidar da possibilidade da água, por si mesma, poder pôr-se em
movimento e transformar-se em todas as coisas.
Questionou-se:
Como é
que da água se pode produzir a pluralidade do mundo?
Neste
mundo se estabelece o finito, o perecível, o gerado, o sentido, o limitado, o
formado, o determinado, o físico, o real, o concreto.
Acaba
por reter o seguinte pensamento:
Sem
injustiça, o limitado não pode ser a origem. O que permanece para além de todas
as coisas não pode ser algo finito.
Em
suma, ele estava atento às coisas naturais e às que proliferam pelo universo, e
aos respectivos fenómenos. Mas, para ele, as ocorrências eram carentes de uma
explicação mais profunda. Era sua preocupação encontrar uma explicação para o
mundo e para todas as coisas nele existentes.
O Mundo
empírico é o mundo que permite adquirir, sistematizar e certificar a
nossa experiência, através das muitas coisas com que somos presenteados. Essas
coisas afectam os nossos sentidos e causam admiração, elas são os objectos da
nossa experiência. Essa afectação é devida ao facto de as coisas se
manifestarem enquanto fenómenos. O reconhecimento da manifestação, da afectação
e da admiração por elas causada, leva-nos a afirmar que elas acontecem e
existem. Neste circunstancialismo, a natureza é física, os objectos são
concretos ou reais, e o mundo é uma realidade não oculta. Ao dizer que este
mundo é uma realidade que não é oculta, estamos já a dar indicação quanto à
possibilidade de existência de uma realidade oculta, que bem pode andar a par da realidade física, e sobrepor a essa realidade, até porque os nossos sentidos não são assim tão
avantajados e podem nos enganar.
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