quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Metafísica de Anaximandro - MD - Momento 85

Lendo outros relatos de outros doxógrafos: 
Relato de Pseudo - Plutarco (relativo a Plutarco, séc. I e II d.C.)
“… Anaximandro que foi companheiro de Tales, disse que o apeiron continha a causa inteira da origem e destruição do mundo, de que, segundo ele, os céus estão separados e, em geral, todos os mundos, que são apeirous (inumeráveis).
Ele declarou que a destruição e muito antes a geração acontecem desde idades infinitas, pois todas ocorrem em ciclos”. 
Relato de Hipólito de Roma (séc. II e III d.C.)
“Ora, Anaximandro de Mileto, …, disse que o princípio e elemento das coisas que existem era o apeiron, tendo sido ele o primeiro a usar este nome do princípio material. (Além disso, disse que o movimento era eterno, do que resulta que se originem os céus). … ele disse que o princípio material das coisas que existem era uma natureza do apeiron, de que provêm os céus e o mundo neles contidos.
Esta natureza é eterna e não envelhece, e também circunda todos os mundos.
Ele fala do tempo como se a geração, a existência e a destruição fossem limitadas.
(Ele fala do tempo …)”.
"… O divino é que não tem origem nem fim … "
Relato de Diógenes Laércio (? séc. III d.C.)
“Anaximandro … dizia que o princípio e elemento é o indefinido, sem distinguir o ar, ou a água ou outra coisa …”
Relato de Simplício (séc. V e VI d.C.) (DK 12 B 1) 103 A
“Entre os que admitem um só princípio móvel e infinito, Anaximandro de Mileto, …, disse que o princípio, e elemento das coisas que existem, era o apeiron (indefinido e infinito), tendo sido ele o primeiro a usar este nome do princípio material. Diz ele que não é a água, nem qualquer outro dos chamados elementos, mas uma natureza apeiron, de que provêm todos os céus e os mundos neles contidos.
E, a fonte da geração das coisas que existem é aquela em que se verifica também a destruição segundo a necessidade; pois paguem castigo e retribuição uns aos outros, pelas suas injustiças, de acordo com o decreto do tempo, conforme ele se exprime nestes termos um tanto poéticos”.


O que é Anaximandro poderá ter constatado e que o levou a caminhar num determinado sentido?
Anaximandro foi um homem atento à realidade que o circundava e sentia-se envolvido por ela.
Perante a continuidade do evoluir constata que ocorrem mudanças constantes da realidade, visto que ocorrem períodos de instabilidade seguidos de estabilidade, e não desviava a sua atenção ao sequenciar cíclico dos fenómenos.
O homem vê-se perante a multiplicidade (abundância), pluralidade (grande número) e a diversidade (variedade) das coisas existentes e dos respectivos fenómenos.
Ele apercebeu-se que as coisas, e os seus fenómenos, com que se confrontava seguem uma ordem ou lei, -Ordem Natural, onde se inclui a ordem humana. Contudo, dirige a sua atenção ainda para mais longe, ou seja, para a ordem universal que rege as coisas que proliferam pelo universo.
Verificou que tais coisas:
-Não se manifestam sempre do mesmo modo e cada uma tem o seu próprio tipo de manifestação.
-São passíveis de serem sentidas (objectos da nossa experiência).
-Têm a tendência para a transformação umas nas outras.
A terra absorve a água da chuva. A água apaga o fogo, acabando por desaparecer os dois. O fogo aquece a água e gera-se vapor.
-As sua propriedades ou qualidades:
Sucumbem ao longo do tempo (morte).
Tudo o que nasce um dia vai morrer (geração e morte).
As coisas estão fadadas a desaparecer (retorno ou morte).
Tudo o que é quente acaba por esfriar (variação de estado e dualidade).
Tudo o que é grande pode ser dividido em partes mais pequenas (divisibilidade).
Todas as coisas são limitadas e usufruem do direito de lugar (limitação e determinação)
As coisas são susceptíveis de se deslocarem (mobilidade).

As coisas estão sujeitas à lei do destino e da justiça (tempo).
Mas, o seu interesse em indagar a physis leva-o a notar mais situações.
Tudo o que se manifesta na natureza o faz de forma dual: dia e noite, masculino e feminino, positivo e negativo, vida e morte, calor e frio, seco e húmido, claro e escuro, etc.
O ar é frio, a água é húmida, e o fogo é quente. Frio, húmido e quente são qualidades dos elementos antagónicas entre si. Cada uma das coisas tem um oposto. O oposto da água é o seco. Portanto, os elementos possuem atributos definidos e actuam em oposição uns aos outros.
Acerca da água:
Os processos de condensação e rarefacção da água exigiam um principio transformador.
A água nas diversas transformações não permanece sempre igual a si mesma.
Do elemento fogo não pode surgir um elemento contrário como a água, porque a observação mostra que eles tendem a destruir-se mutuamente.
O que se enuncia fá-lo duvidar da possibilidade da água, por si mesma, poder pôr-se em movimento e transformar-se em todas as coisas.
Questionou-se:
Como é que da água se pode produzir a pluralidade do mundo?
Neste mundo se estabelece o finito, o perecível, o gerado, o sentido, o limitado, o formado, o determinado, o físico, o real, o concreto.  
Acaba por reter o seguinte pensamento:
Sem injustiça, o limitado não pode ser a origem. O que permanece para além de todas as coisas não pode ser algo finito.
Em suma, ele estava atento às coisas naturais e às que proliferam pelo universo, e aos respectivos fenómenos. Mas, para ele, as ocorrências eram carentes de uma explicação mais profunda. Era sua preocupação encontrar uma explicação para o mundo e para todas as coisas nele existentes.


Mundo empírico é o mundo que permite adquirir, sistematizar e certificar a nossa experiência, através das muitas coisas com que somos presenteados. Essas coisas afectam os nossos sentidos e causam admiração, elas são os objectos da nossa experiência. Essa afectação é devida ao facto de as coisas se manifestarem enquanto fenómenos. O reconhecimento da manifestação, da afectação e da admiração por elas causada, leva-nos a afirmar que elas acontecem e existem. Neste circunstancialismo, a natureza é física, os objectos são concretos ou reais, e o mundo é uma realidade não oculta. Ao dizer que este mundo é uma realidade que não é oculta, estamos já a dar indicação quanto à possibilidade de existência de uma realidade oculta, que bem pode andar a par da realidade física, e sobrepor a essa realidade, até porque os nossos sentidos não são assim tão avantajados e podem nos enganar.   





























































































































































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