Relatos de Aristóteles
(séc. IV a.C.)
Relato no De
Caelo
“De facto alguns supõem que existe uma
única substância, e essa supõem-na como a água, outros como o ar, outros como o
fogo, outros como sendo mais subtil que a água e mais densa que o ar; é ela
segundo dizem, que circunda todos os céus, por ser infinita”.
Relato na Gen.
e Corr.
“Não há um só destes elementos (ar, água,
fogo e terra) de que derivem todas as coisas; e não há certamente nenhum outro
além destes, algo intermediário entre o ar e água, ou entre o ar e o fogo, que
seja mais denso que o ar e o fogo, e mais subtil que os demais; pois isso será,
simplesmente ar e fogo como oposição dos contrários; mas uma das qualidades
contrárias é a privação – de modo que é impossível ao elemento intermédio
existir isolado, como pretendem alguns pensadores a respeito do infinito e do
circundante”.
Relato
“Todos
os que se ocuparam da natureza fazem do infinito propriedade de outra natureza
que pertence aos chamados elementos, como a água ou o ar ou o seu
intermediário”.
Relato na
Física
“Dois tipos de explicação são dados
pelos físicos. Os que fizeram de um corpo subsistente uma unidade, que é um dos
três elementos ou um outro que é mais denso
que o fogo e mais subtil do que o ar, geram o resto por condensação e
rarefacção, fazendo assim a pluralidade dos seres … Mas, outros dizem que os
contrários se separam do Uno, estando presentes nele, como dizem Anaximandro e
todos os que admitem a unidade e a multiplicidade, como Empédocles e
Anaxágoras; pois estes também separam todo o resto da mistura”.
Relato na
Física
“Contudo, nem um corpo infinito pode
ser uno e simples, quer seja como afirmam alguns, aquilo que existe à margem
dos elementos, e de onde os fazem sair, quer ele seja expresso simplesmente.
Pois alguns há que fazem infinito o que
existe fora dos elementos, não o ar, ou a água, para que o resto seja destruído
pela substância infinita destes; é que os elementos opõem-se uns aos outros (o
ar é frio, a água é húmida e o fogo é quente), e se um desses elementos fosse
infinito o resto já teria sido destruído.
Mas, nestas condições, eles dizem que o
infinito é diferente desses elementos e que provêm dele”.
Relato na
Física
“A crença na existência do infinito
resultante na maioria dos casos, para os que consideram o assunto, de cinco
factores … demais, porque só assim a geração e a destruição não deixariam de se
verificar, se houvesse uma fonte infinita de onde provém o que é gerado”.
Relato na
Física
“Nem, para que a geração não deixe de
se verificar, é necessário a um corpo perceptível ser efectivamente infinito;
pois é possível que, sendo limitado o total das coisas, a destruição de uma
seja a geração de outra”.
Relato na
Física
“ … não há princípio do infinito … mas
é ele que parece ser o princípio das outras coisas, e envolve-as e dirige-as a
todas, conforme dizem os que não admitem outras causas, como a inteligência e o
amor, acima e além do infinito. E, é isto o divino, por ser imortal e
indestrutível, como dizem Anaximandro e a maioria dos fisiólogos”.
Relato na Física
"Tudo tem uma origem ou é
uma origem, o Sem Limites não tem origem, … terá um limite … é tanto por não
nascer e por ser imortal, sendo uma espécie de origem. Pois o que se tornou tem
também, necessariamente, um fim, e não há uma terminação para cada processo de
destruição".
Crítica de Aristóteles
Aristóteles nos seus relatos descreve as possíveis
ideias de Anaximandro, umas vezes não se refere explicitamente a ele, noutras
menciona-o mesmo, noutras ainda descreve ideias dos fisikói. Ao lê-los ficamos
com a sensação que teve na sua presença escritos (papiros) de Anaximandro, o
que não será de todo incorrecto, tendo em conta que ele foi um bom
bibliotecário na escola platónica e depois no seu próprio liceu. Aliás, li-a e discutia
bastante os documentos que se encontravam ao seu alcance. Também ficamos com a
ideia de que Aristóteles não concordava em absoluto com “a ideia de apeiron” de
Anaximandro. Talvez, já tivesse em mente a sua própria metafísica. O que os
relatos demonstram é que Aristóteles, em certa medida, é influenciado por
Anaximandro e pelos fisikói na construção do seu pensamento metafísico, não
deixando de ir mais longe com o seu propósito.
Crítica de Aristóteles à ideia de apeiron:
-Parece argumentar que “o sem limites” não tem
origem porque é em si a origem. Depois avança que terá um limite, o que não
deixa de ser uma contradição.
-Seria uma substância material como os outros elementos
e estabelece-o como um elemento intermediário entre os elementos, mais subtil
que a água e mais densa que o ar.
-Parece refutar a ideia de que o apeiron seria um
elemento à margem dos outros elementos.
-Apesar do que foi dito, indicia que seria algo
nebuloso, uma espécie de mistura ou mescla confusa de elementos, que muda de
forma com frequência, seria uma espécie de caos.
-Na questão “infinito” apresenta uma posição
discordante:
Parece do que lhe foi transmitido que entendeu que
o gerado (corpo perceptível) era efectivamente infinito, e não detentor de
resquícios do infinito.
Como os elementos se opõem uns aos outros (o ar é frio,
a água é húmida e o fogo é quente), se um desses elementos fosse infinito todas
as outras coisas já teriam sido destruídas.
-Não deixa de ser crítico quanto à concepção de
geração de Anaximandro. Avança com a ideia de que não uma terminação para cada
processo de destruição.
-Para o apeiron ser divino, apesar de ser imortal
e indestrutível, necessitaria de ter mais dois atributos: a inteligência e o
amor. Claro que, Anaximandro não poderia deter a noção de espírito de
Aristóteles que gera, envolve e coordena todas as coisas existentes.
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