sexta-feira, 22 de maio de 2015

Metafísica de Des Cartes - Momento 57

Aspectos Metafísicos de Tales de Mileto (6)
(...)


A Questão de Deus
Esta questão pode ser abordada por dois prismas: Uma decorrente da conceptualização da Physis – Natureza, a qual dá nota de um certo materialismo, no sentido da não crença. A outra vem na sequência da doxografia, tendo em conta as interpretações do conceito de Physis, nomeadamente, de Aristóteles, Aécio e Cícero. A qual está impregnada de um lado mítico, no sentido da crença.      
Primeira abordagem
À água – Physis (natureza), Tales não atribui o papel de Deus, nem o papel dos deuses do Olimpo,  não invoca as palavras Deus e Alma, no sentido mítico actual,  embora se saliente uma certa conotação divina.  Tales não diz, não afirma, que a água é a algo sobrenatural, para ele a água é algo natural e material, é simplesmente a ‘natureza’ – Physis Material.
Em certa medida, a ideia de deuses é contrária ao materialismo que Tales nos induz. Quando define a realidade, escolhe um ‘elemento’, não um deus.   A força motriz não era um ser sobrenatural.   Era uma força dentro do próprio universo.   Tales nunca invocou um poder que não estava presente na própria natureza, porque ele acreditava que ele havia reconhecido uma força que impulsionou os eventos da natureza.
Quando afirma:  as coisas estão cheias de deuses,  tal vai no sentido de animação, os, iniciar, manter e finalizar o movimento das/nas coisas.
É possível que Tales não perfilhasse a crença num Deus e até tenha rejeitado os antigos deuses.
Segunda abordagem
Platão
Tales não constava das principais linhas de Platão. Mas, ao ler certas passagens de Platão, na Apologia de Sócrates, no Cratylus, no Timeu e nas Leis, nota-se que Platão se converteu à ideia de alma numa teoria de que "todas as coisas estão cheias de deuses", o que por sua vez vem a influenciar Aristóteles.
Aristóteles 
“É deste modo, que os filósofos, dos quais tratamos, asseveram que nenhuma das outras coisas, nem nasce, e nem morre, porque deve haver ali uma qualquer realidade, seja uma, ou seja múltipla, a partir do que todo o resto é engendrado, mas que ela mesma é conservada”.
Aristóteles defende que Tales e seus sucessores podiam admitir uma natureza suprema (Deus, Espírito):
-Outra realidade una ou múltipla,
-que se conserva a si mesmo,
-e que origina todo o resto.
Tales foi o primeiro a proclamar a imortalidade dessa natureza suprema, pois a concebia como um elemento intrínseco à matéria.
Com esta noção introduz uma concepção de Deus encontrada através da razão.  
Écio
A inteligência do mundo é o Deus, porque tudo está simultaneamente animado e cheio de deuses; o húmido elementar é penetrado pela potência divina que o põe em movimento.
A interpretação de Aécio sobre o pensamento de Tales, admite a possibilidade de ele ter considerado a existência de uma entidade suprema, entidade que é a inteligência do mundo. Baseia-se nas razões de o húmido ser penetrado por uma potência divina e o mundo estar simultaneamente animado e cheio de deuses. 
Cícero:
Tales de Mileto, que pela primeira vez formulou perguntas sobre tais temas, disse, que a água é o começo dos seres e que Deus é esta mente que fez da água Tudo.
Cícero sublinha que a água é origem dos seres e Deus é a mente que fez da água tudo.
Ao ler a documentação à mão sobre o assunto, uma pergunta salta na mente:
Mas, como é que a Physis ganhou esse poder de se animar a si mesmo (quem causou o movimento que adquiriu), e por sua vez animar as outras coisas (a capacidade de transmitir o movimento)?
Se as coisas se movem é porque estão vivas. E se estão vivas é porque uma Força Activa é inseparável delas. Essa força é originada pela água, mas como surgiu essa capacidade da água? 
Estava em aberto quem originou essa Physis Material, esse fundamento, causa de existência e causa de movimento, visto que esta originou todo o resto.
Tales não fecha a porta à existência de uma entidade sobrenatural superior, inteligência superior que concede à Physis fundamento e origem, e se constitui como uma Força Activa Permanente. No entanto, fica a dúvida se não poderá ser uma ou mais que uma.
A humidade espelha a evidência da penetração na Physis de uma Potência Superior que a põe em movimento.
É de considerar uma só entidade, cujas características seriam as seguintes:
Sobre si mesmo:
1 – Não nasce, nem morre, é eterna (similitude com os deuses).
2 - Pensa, é a inteligência e a consciência do mundo.
3 - Anima-se a si mesmo perpectuamente.
4 - Conserva-se a si mesma.
E, em relação a todas as coisas do mundo:
5 - Inseparável de toda a matéria (e inseparável dos deuses).
6 - Fundamento das coisas.
7 - Origem das coisas. A partir dela tudo é engendrado.
8 - Anima as coisas, é uma força activa (potência) permanente.
9 - Mantém as coisas.
10 - Finaliza as coisas.

11 - Concede à Physis – ‘Natureza’, a água, parte das suas características de ser. Ou seja, gere-a, mantém-na, concede-lhe a incumbência de ser a génese e o constituinte do universo, anima-a permanentemente, de tal modo que tenha sempre a possibilidade de animar os seres que cria ou venham a ser; e, por fim, finaliza-a. Sintetizando: Concede-lhe a possibilidade de ser algo natural, constituindo-se como a essência da materialidade. (...)

Sem comentários:

Enviar um comentário