Aspectos Metafísicos de Tales de Mileto (6)
(...)
A Questão de Deus
Esta questão pode ser abordada por dois prismas: Uma decorrente da
conceptualização da Physis – Natureza, a qual dá nota de um certo materialismo,
no sentido da não crença. A outra vem na sequência da doxografia, tendo em
conta as interpretações do conceito de Physis, nomeadamente, de Aristóteles, Aécio
e Cícero. A qual está impregnada de um lado mítico, no sentido da crença.
Primeira
abordagem
À água – Physis (natureza), Tales
não atribui o papel de Deus, nem o papel dos deuses do Olimpo, não invoca as palavras Deus e Alma,
no sentido mítico actual, embora se saliente uma certa conotação
divina. Tales não diz, não afirma, que a água é a algo sobrenatural,
para ele a água é algo natural e material, é simplesmente a ‘natureza’ – Physis
Material.
Em certa medida, a ideia de
deuses é contrária ao materialismo que Tales nos induz. Quando define a
realidade, escolhe um ‘elemento’, não um deus. A força motriz não era um
ser sobrenatural. Era uma força dentro do
próprio universo. Tales nunca invocou um
poder que não estava presente na própria natureza, porque ele acreditava que
ele havia reconhecido uma força que impulsionou os eventos da natureza.
Quando afirma: as coisas estão
cheias de deuses, tal vai no sentido
de animação, os, iniciar, manter e finalizar o movimento das/nas coisas.
É possível que Tales não perfilhasse
a crença num Deus e até tenha rejeitado os antigos deuses.
Segunda
abordagem
Platão
Tales não constava das principais
linhas de Platão. Mas, ao ler certas passagens de Platão, na Apologia de Sócrates, no Cratylus, no Timeu e nas Leis,
nota-se que Platão se converteu à ideia
de alma numa teoria de que "todas as coisas estão cheias de deuses",
o que por sua vez vem a influenciar Aristóteles.
Aristóteles
“É deste modo, que os filósofos,
dos quais tratamos, asseveram que nenhuma das outras
coisas, nem nasce, e nem morre, porque deve haver ali uma qualquer realidade,
seja uma, ou seja múltipla, a partir do que todo o resto é engendrado, mas que
ela mesma é conservada”.
Aristóteles defende que Tales e
seus sucessores podiam admitir uma natureza suprema (Deus, Espírito):
-Outra realidade una ou múltipla,
-que se conserva a si mesmo,
-e que origina todo o resto.
Tales foi o primeiro a proclamar
a imortalidade dessa natureza suprema, pois a concebia como um elemento
intrínseco à matéria.
Com esta noção introduz uma
concepção de Deus encontrada através da razão.
Écio
A inteligência do mundo é o Deus, porque tudo está simultaneamente
animado e cheio de deuses; o húmido elementar é penetrado pela potência divina
que o põe em movimento.
A interpretação de Aécio sobre o
pensamento de Tales, admite a possibilidade de ele ter considerado a existência
de uma entidade suprema, entidade que é a inteligência do mundo. Baseia-se nas
razões de o húmido ser penetrado por uma potência divina e o mundo estar
simultaneamente animado e cheio de deuses.
Cícero:
Tales de Mileto, que pela primeira vez formulou perguntas sobre
tais temas, disse, que a água é o começo dos seres e que Deus é esta mente que
fez da água Tudo.
Cícero sublinha que a água é
origem dos seres e Deus é a mente que fez da água tudo.
Ao ler a documentação à mão sobre
o assunto, uma pergunta salta na mente:
Mas, como é que
a Physis ganhou esse poder de se animar a si mesmo (quem causou o movimento que
adquiriu), e por sua vez animar as outras coisas (a capacidade de transmitir o
movimento)?
Se as coisas se
movem é porque estão vivas. E se estão vivas é porque uma Força Activa é
inseparável delas. Essa força é originada pela água, mas como surgiu essa
capacidade da água?
Estava em aberto
quem originou essa Physis Material, esse fundamento, causa de existência e
causa de movimento, visto que esta originou todo o resto.
Tales não fecha a
porta à existência de uma entidade sobrenatural superior, inteligência superior
que concede à Physis fundamento e origem, e se constitui como uma Força Activa
Permanente. No entanto, fica a dúvida se não poderá ser uma ou mais que uma.
A humidade
espelha a evidência da penetração na Physis de uma Potência Superior que a põe
em movimento.
É de considerar
uma só entidade, cujas características seriam as seguintes:
Sobre si mesmo:
1 – Não nasce, nem morre, é eterna (similitude com os deuses).
2 - Pensa, é a inteligência e a consciência do mundo.
3 - Anima-se a si mesmo perpectuamente.
4 - Conserva-se a si mesma.
E, em relação a todas as coisas do mundo:
5 - Inseparável de toda a matéria (e inseparável dos deuses).
6 - Fundamento das coisas.
7 - Origem das coisas. A partir dela tudo é engendrado.
8 - Anima as coisas, é uma força activa (potência) permanente.
9 - Mantém as coisas.
10 - Finaliza as coisas.
11 - Concede à Physis – ‘Natureza’, a água, parte
das suas características de ser. Ou seja, gere-a, mantém-na, concede-lhe a
incumbência de ser a génese e o constituinte do universo, anima-a
permanentemente, de tal modo que tenha sempre a possibilidade de animar os
seres que cria ou venham a ser; e, por fim, finaliza-a. Sintetizando: Concede-lhe
a possibilidade de ser algo natural, constituindo-se como a essência da
materialidade. (...)

Sem comentários:
Enviar um comentário